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Aposta vira depressão: o verdadeiro vilão das bets

Aposta vira depressão: o verdadeiro vilão das bets

No CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Aero Rancho, em Campo Grande, ao menos uma pessoa por mês chega ao serviço com problemas ligados ao vício em jogos de apostas online. A informação é do diretor técnico da unidade, o psiquiatra Fernando de Freitas Monteiro. O número, no entanto, não representa a dimensão real do problema.

A maioria dos pacientes não procura ajuda dizendo que está viciada em apostas. Eles chegam ao consultório com depressão, ansiedade, crises emocionais, dívidas acumuladas ou conflitos familiares. O comportamento relacionado aos jogos só aparece durante a avaliação clínica.

“Raramente a pessoa procura ajuda por causa do jogo em si. Geralmente ela procura pelos problemas que o jogo causou”, explica o médico.

O transtorno do jogo é considerado subnotificado. Muitas pessoas não reconhecem a compulsão ou sentem vergonha de admitir as perdas financeiras. Segundo Fernando, existe a percepção equivocada de que o vício é resultado de irresponsabilidade ou falta de disciplina. “Muita gente encara isso como uma falha moral. Isso faz com que a pessoa esconda o problema e demore mais para procurar tratamento”, afirma.

A preocupação aumenta com a forte exposição às plataformas de apostas esportivas. Às vésperas da Copa do Mundo, a expectativa é de crescimento das campanhas publicitárias. Dados citados pelo psiquiatra apontam que 46,2% dos adultos fizeram algum tipo de aposta nos últimos 12 meses. Entre adolescentes, o percentual chega a 17,9%.

Quem corre mais risco

Homens jovens estão entre os mais vulneráveis. Também chamam atenção pessoas que vivem sozinhas, têm pouca rede de apoio ou passam por momentos como separação, luto, desemprego ou perdas financeiras. Pessoas em situação financeira vulnerável também aparecem com frequência. “A aposta aparece como uma promessa de dinheiro rápido. Para quem já enfrenta dificuldades, aquilo pode parecer uma oportunidade. É aí que mora o risco”, diz Fernando.

Quando a diversão vira sofrimento

O transtorno do jogo atinge diferentes áreas da vida. A pessoa organiza a rotina em torno das apostas, e o comportamento interfere no trabalho, nos relacionamentos e na saúde emocional. Muitos pacientes desenvolvem ansiedade, depressão, insônia e sentimentos de culpa. “O ciclo do jogo é baseado na expectativa de recuperar o prejuízo. A pessoa perde e acredita que a próxima aposta vai resolver”, afirma o psiquiatra.

Tratamento gratuito pelo SUS

O tratamento no CAPS é gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O atendimento começa com acolhimento e avaliação individual. “O CAPS funciona como uma porta de entrada. O importante é procurar ajuda”, explica Fernando. O tratamento é baseado em psicoterapia, individual ou em grupo. Medicamentos podem ser indicados em casos de ansiedade ou depressão, mas não são a principal ferramenta.

O primeiro resultado do tratamento é impedir que as perdas continuem crescendo. “Muitas vezes a pessoa chega com dívidas enormes. O primeiro resultado é impedir que ela continue crescendo”, afirma. O médico sugere observar três sinais de alerta: quanto dinheiro foi gasto com apostas nos últimos meses, se familiares demonstram preocupação e se os jogos ocupam grande parte dos pensamentos.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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