O Parque do Lageado, em Campo Grande, expõe uma realidade de vulnerabilidade. O bairro concentra favelas, registra crimes violentos e tem uma população em modo de sobrevivência. No entanto, projetos sociais espalhados pelo bairro mostram que a vontade de transformar essa realidade é uma característica forte, que muitas vezes fica de fora das manchetes.
Com 16.653 habitantes, o bairro tem a segunda menor renda per capita da cidade, de R$ 332,65, ficando atrás apenas do Caiobá (R$ 299,63). A taxa de analfabetismo também ocupa a segunda posição, com 9,55%, enquanto a primeira é de 9,78% no bairro vizinho, o Los Angeles. Os dados são da prefeitura e estão baseados no Censo 2022 do IBGE.
O Lageado foi criado na década de 80, a partir da desapropriação de fazendas. O bairro cresceu em torno do Presídio Federal, de uma estação de tratamento de esgoto e do antigo lixão a céu aberto da Capital, depois substituído por um aterro sanitário. A expansão pressionou a Bacia do Córrego Lajeado, importante para o abastecimento de água, mas que também é uma das mais degradadas.
No ano passado, o bairro foi um dos que mais registrou homicídios, segundo o painel de monitoramento criminal da Sejusp. Neste ano, o último homicídio registrado foi de Luiz Guilherme da Costa dos Santos, de 20 anos, morto a tiros numa quadra de futebol na madrugada de 3 de junho.
Moradores mais antigos lembram do passado de disputa entre gangues. Lucilene Santana, de 36 anos, vive no Lageado há seis anos e só ouviu falar dos grupos rivais. Ela e o marido compraram uma casa por R$ 85 mil, sem imaginar que se mudariam para um bairro com tanta presença de viaturas. “Aqui, para respeitar, é só o Choque”, diz ela, referindo-se ao batalhão de elite da Polícia Militar. Apesar do medo, Lucilene dedica boa parte do tempo ao trabalho voluntário.
Um dos projetos sociais mais antigos do bairro, o Instituto Misericordes, surgiu em 2013 no meio do antigo lixão. A iniciativa foi do padre Agenor Martins. O instituto atende crianças de 6 a 15 anos com refeições, reforço escolar e esportes. Cerca de 80 famílias são beneficiadas. A presidente Nilda Silva afirma que o trabalho dá resultados: “Os frutos desse projeto que moravam debaixo da lona cresceram e hoje trabalham aqui pelo bairro”. O projeto também oferece educação financeira com a “misereca”, uma cédula fictícia.
Perto do Misericordes, dois projetos sociais, o Fraternidade Despertar e o Opammas, funcionam em um espaço doado. O policial penal Gilson Martins gerencia o local, que oferece aulas de informática, artes e esportes. O local foi reativado há três meses e já está com todas as vagas ocupadas. “Chegam aqui à tarde sem ter comido nada, daí começamos a dar almoço para quem quer”, conta Gilson.
Há quase um ano, foi inaugurado o CEU das Artes, um espaço administrado pela prefeitura. O local conta com um CRAS, salas para aulas culturais, biblioteca, quadras esportivas e uma pista de skate. O coordenador do CRAS, Ismael de Deus Lima, explica que o gerenciamento é dividido entre as fundações municipais de Cultura e de Esporte. A maioria dos atendimentos acolhe mães solo. “É um bairro em que há muitas mulheres que precisam cuidar dos filhos e têm dificuldade de entrar no mercado de trabalho”, afirma Ismael.
Nas ruas, os moradores andam a pé por vias sem asfalto e lidam com o abandono de animais e o despejo de lixo. Gilson Martins afirma que já viu carros parando para deixar animais no local. “Acham que aqui é depósito. Que tudo o que não serve têm que jogar aqui”, diz o voluntário.
