Em sua décima visita ao Brasil, a escritora e ativista Angela Davis participa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Em entrevista no Rio de Janeiro, ela falou sobre política, sistema prisional e a situação dos Estados Unidos.
Davis afirmou que a supremacia branca não está em ascensão no país. “Eles apenas saíram do armário”, disse, referindo-se aos grupos extremistas. Para ela, a vitória de Donald Trump não representa a vontade da maioria da população, já que muitos eleitores deixaram de votar.
A ativista defende a abolição do sistema prisional. Ela argumenta que a justiça transformativa leva em conta as necessidades das vítimas e também as condições sociais que levam ao crime. “O único modo de fazer isso é atendendo às necessidades dos seres humanos, encorajando a imaginação por meio da educação”, afirmou.
Sobre o uso de tecnologias como reconhecimento facial e inteligência artificial na segurança pública, Davis disse que acha a prática perigosa. Segundo ela, a base desses sistemas é o racismo estrutural, e o policiamento preditivo serve para manter as estruturas sociais e econômicas como estão.
Ela também comentou sobre o movimento “Defund the Police”. Na avaliação de Davis, o movimento fracassou por causa de intervenções conservadoras, mas as bases foram lançadas. Ela citou comunidades que se levantaram contra o ICE em Minnesota e Chicago como exemplo de que a resistência continua.
Questionada sobre a causa palestina, Davis afirmou que a tentativa de equiparar antissemitismo à solidariedade palestina é uma tática conservadora. Ela disse que pesquisas nos EUA mostram que a maioria da população se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel.
Angela Davis é considerada uma das maiores referências do feminismo e do movimento negro. Ela participa da Flip no próximo sábado (25), às 18h, em uma plateia com capacidade para 700 pessoas no Sesc Caborê. Acompanhada da acadêmica Gina Dent, sua companheira de vida e projetos, Davis escreve um livro sobre jazz.
