Uma cirurgia realizada em Campo Grande retirou 115 miomas do útero de uma paciente de 32 anos sem que fosse necessária a remoção do órgão. O procedimento, considerado inédito no mundo pelos médicos envolvidos, preservou a possibilidade de gravidez de uma mulher moradora de Laguna Carapã, município a cerca de 280 quilômetros da Capital.
A operação foi realizada em abril, no Hospital Cassems (Caixa de Assistência dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul), por uma equipe especializada em cirurgia robótica. Segundo os médicos, não há registros na literatura médica de preservação uterina em um caso com esse volume de miomas.
A paciente já havia passado por uma cirurgia aberta em 2022, quando oito miomas foram retirados. Mas, por causa de uma condição genética, os tumores voltaram a crescer e se multiplicaram rapidamente. Em exames recentes, o útero aparecia completamente tomado pelos miomas.
“Pareciam cachos de uva dentro do útero dela”, descreveu o cirurgião robótico ginecológico Guilherme Shiraishi.
Os médicos explicam que, diante da gravidade do quadro, a maioria dos especialistas consultados indicava a histerectomia, a retirada total do útero, procedimento considerado padrão em situações semelhantes, mas a paciente recusava essa possibilidade.
“Ela passou por outros médicos que queriam realizar a retirada do útero. Porém, ela tem o sonho de ser mãe com 32 anos e não queria perder o útero”, explicou o médico.
Segundo Shiraishi, o caso é extremamente raro e ainda pouco estudado pela medicina. Isso torna a cirurgia especialmente desafiadora, principalmente pelo risco de hemorragia durante o procedimento.
Para reduzir as chances de sangramento, a equipe utilizou técnicas específicas, como ligadura temporária das artérias uterinas, aplicação de ácido tranexâmico e vasopressina, substância que ajuda a contrair os vasos sanguíneos.
A cirurgia durou cerca de 5 horas e contou com o apoio de tecnologia robótica de última geração. O cirurgião robótico oncológico Vitor Cathcart explicou que o robô foi essencial para permitir uma atuação precisa em uma região considerada de difícil acesso.
“O robô dá visão em três dimensões, ampliada e permite enxergar vasos muito pequenos e miomas minúsculos, de dois ou três milímetros, que seriam difíceis de visualizar a olho nu”, afirmou.
Segundo ele, a tecnologia também trouxe mais estabilidade e segurança para um procedimento longo e complexo, sendo mais tranquilo para o paciente e para a equipe médica. “Sem tremor, sem cansaço, operando sentado e com alta precisão, conseguimos aumentar muito as chances de sucesso.”
Os médicos relataram que os poucos casos semelhantes descritos no mundo foram feitos por cirurgia convencional e tiveram complicações, incluindo sangramento intenso e necessidade de múltiplas transfusões sanguíneas.
A recuperação da paciente surpreendeu a equipe. Apenas 12 horas após o fim da cirurgia, ela recebeu alta hospitalar, sem complicações e praticamente sem dor, voltou de carro para Laguna Carapã no mesmo dia.
“Então, para miomas, endometriose, cirurgias complexas, isso é excepcional”, destacou Shiraishi.
Hoje, pouco mais de um mês após o procedimento, a paciente segue em acompanhamento médico e já iniciou a próxima etapa do tratamento, que é o planejamento para engravidar.
Segundo os médicos, como a condição é hereditária, os miomas podem voltar a surgir nos próximos anos, por isso, a paciente corre contra o tempo. A expectativa da equipe é iniciar o processo de fertilização em cerca de seis meses, após o congelamento de óvulos e formação de embriões.
“A gente tem que tentar. É o sonho dela, a gente não pode deixar de tentar”, afirma Shiraishi.
