No calendário político do governo, o fim da escala 6×1 deveria passar no Senado até 17 de julho. No dia 18, começa o recesso parlamentar, que vai até o início de agosto. A aprovação da redução da jornada máxima de trabalho para 42 horas, depois 40 horas, e das duas folgas por semana já seria uma vitória para a causa governista. Se o calendário oficial der certo, a mudança poderia ter efeito prático antes do primeiro turno da eleição, em 4 de outubro. O caldo, no entanto, anda azedo.
No Congresso da última década e meia, emendas constitucionais podem ser aprovadas em horas, em troca de muito. Até 17 de julho haveria tempo, não fosse a encrenca política. O fim da 6×1 pode passar, mas emendado. Por exemplo, com um prazo de implementação mais dilatado. No mínimo, tenta-se permitir que empresas adotem as novas regras depois de três meses da aprovação legal da mudança, em vez dos dois meses atuais.
A fraqueza do governo no Congresso, a desordem dos comandos políticos, a eleição próxima e a baixeza moral e intelectual do parlamentar médio aumentam os riscos de aprovação da “pauta-bomba”. O termo designa leis irresponsáveis ou picaretas. O dano maior será sentido nos próximos governos, embora a nova rodada de degradação fiscal já possa respingar em Lula 3.
Na agenda destrutiva do Congresso, tramitam coisas como a PEC das igrejas, que propõe mais redução de impostos. Há o projeto de renegociação da dívida de produtores rurais, que foi inflado até o tamanho de bomba de destruição maciça. Há também a PEC dos agentes de saúde, o aumento do piso salarial dos profissionais de saúde de rede pública e a ampliação dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios.
Gente do Congresso quer negociar ao menos parte desses projetos em troca da mudança de escala e da redução de jornada. Não se sabe o que quer o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), irritado com Lula, com o STF e com quem queira investigá-lo. É improvável que os senadores queiram fazer campanha com o rótulo de inimigo da 5×2, mas no máximo 54 senadores devem se recandidatar. Desses, 34 devem se recandidatar de fato. Tem senador que não está diretamente pressionado pelas urnas deste ano.
Não quer dizer que o fim da 6×1 vá cair. Mas tem mais gente disposta a negociar mudanças, na Câmara inclusive. A pressão empresarial está forte. O Congresso pode conceder mudanças de cronogramas, como adiar a jornada de 40 horas ou o início da implementação. Muita gente não quer entregar de graça para Lula o prêmio do fim da 6×1.
