As gravações do longa-metragem “Lydia”, dirigido por Ricardo Câmara, começaram na Morada dos Baís, em Campo Grande. O casarão histórico, onde a artista Lídia Baís viveu, serve de cenário para a cinebiografia que aborda a trajetória da pintora surrealista.
O filme busca mostrar a artista além do formato tradicional de homenagem histórica. Segundo o diretor, a ideia é retratar a mulher complexa, intensa e espiritualizada que transformou a própria casa em espaço de criação. O roteiro nasceu durante a pandemia, após Câmara ter contato com um livro sobre Lídia. A produção foi viabilizada pela Lei Paulo Gustavo.
Câmara, jornalista formado pela UFMS e doutor pela Universidade Autônoma de Barcelona, afirma que o roteiro foi construído de forma colaborativa. Reuniões com artistas, pesquisadores e pessoas que conviveram com Lídia ajudaram a alimentar a história com detalhes afetivos. Parte da pesquisa visual foi feita em Assunção, no Paraguai, onde a artista passou a infância.
No elenco, a atriz Beatrice Sayd interpreta Lídia na juventude. A cantora Alzira Espíndola vive a artista na fase mais velha, quando era chamada de Irmã Trindade. O filme também reúne nomes como Ney Matogrosso, Ana Brun, Gisele Sater e Breno Moroni.
Para Beatrice, o projeto representa uma oportunidade para o audiovisual de Mato Grosso do Sul. Ela critica a falta de investimento em cultura no Estado e afirma que muitos projetos não criam vínculos com artistas locais. Já Gisele Sater, que interpreta Amélia, mãe de Lídia, diz que a preparação para o papel mudou sua visão sobre a personagem, revelando uma mulher mais sensível do que imaginava.
A atriz Giovanna Zottiono, que vive Celina, irmã de Lídia, afirma que o trabalho exigiu uma construção intuitiva devido à falta de registros históricos sobre a personagem. O ator Fábio Umêda, intérprete de Aydano, irmão mais novo da artista, descreve a imersão no casarão como uma viagem ao universo dos anos 30.
Jéssica Barbosa Cauim, que interpreta Benedita, figura cercada de mistério na vida de Lídia, destaca a dimensão social da Morada dos Baís. Ela relata que, ao chegar em Campo Grande, se surpreendeu com a dificuldade de encontrar relatos sobre a presença negra na história local. Para ela, o local ocupado por Lídia envolvia o cuidado com uma população que era rejeitada na época.
A cantora Alzira Espíndola, que estreia no cinema com o papel, trata a personagem como uma presença que já rondava sua vida. Ela conta que o pai foi contador de Lídia e que a mãe dizia ver a figura da artista na janela da Morada dos Baís anos após sua morte.
Trajetória da artista
Lídia Baís nasceu em Campo Grande em 1900 e morreu em 1985. Foi uma pintora surrealista que rompeu com os padrões da época ao se dedicar à arte, literatura e composição musical. Ela circulou entre nomes do modernismo e viajou pela Europa, desenvolvendo uma linguagem própria que dialogava com o expressionismo e o surrealismo. Sem poder seguir carreira fora da cidade natal, transformou a Morada dos Baís em espaço de criação e resistência, onde produziu obras como o “Micróbio da Fuzarca”.
