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Povo de axé vai às ruas contra intolerância religiosa

Povo de axé vai às ruas contra intolerância religiosa

Integrantes de diversas casas de axé foram às ruas do bairro Parque do Lageado, em Campo Grande, neste domingo (12), para denunciar o preconceito e pedir respeito às religiões de matriz africana. A manifestação ocorreu dias após o pai de santo Paulo Henrique da Silva denunciar mais um caso de intolerância religiosa na mesma região.

O babalorixá Augusto de Logunedé, presidente do Instituto Yalodê e organizador do ato, afirmou que a situação vivida por Paulo é comum entre praticantes de Candomblé, Umbanda e Quimbanda. “Muitas vezes há até interrupção de cultos. Em uma ação comunitária, chegou a denúncia de uma moradora que queria incendiar a casa de outra porque ela havia feito um despacho”, exemplificou.

Segundo ele, oferecer alimentos como farofa de dendê, mel e água é uma tradição dessas religiões em busca de proteção e bênçãos. “Não era um ataque contra ninguém, era apenas a expressão da fé dela”, disse. Augusto de Logunedé destacou que a presença dos manifestantes mostra que eles existem. “As pessoas, sejam evangélicas ou de qualquer outra religião, precisam aprender a respeitar a crença alheia. O povo do Axé não tem nada a ver com o demônio. Nós cultuamos os orixás e as entidades ancestrais brasileiras”, completou.

A mãe de santo Iyalorixá Janayna de Obaluaê contou que a religião sempre fez parte de sua vida, o que a ajuda a enfrentar o preconceito. “Mas vejo que os filhos mais novos, que estão começando agora, sofrem muito. O bullying é constante. As pessoas fazem da gente monstros, dizem que sacrificamos animais, e não é nada disso. Nós apenas cultuamos uma religião de matriz afro-brasileira”, relatou.

Ela afirmou que a intolerância aparece desde a busca por serviços públicos até a ida ao supermercado. “Quando buscamos um benefício ou atendimento na rede pública de saúde, muitas vezes somos vistos com outros olhares e sentimos que outras pessoas recebem preferência. Somos muito discriminados”, disse. Janayna também citou um episódio em que seus filhos foram atropelados por um carrinho de supermercado. “Foi preciso chamar o gerente. Também somos chamados de demônio, de capeta”, completou.

Ela apontou que o preconceito começa pelas roupas típicas usadas. “Vestimos branco porque o branco representa a paz, e é isso que queremos transmitir. Infelizmente, muitas pessoas enxergam isso com discriminação”, afirmou.

Denúncia – Na manhã de 3 de junho, o pai de santo Paulo Henrique da Silva, de 34 anos, denunciou à polícia um caso de intolerância religiosa em Campo Grande. O pastor Sérgio Britto, da igreja Ministério de Jesus Cristo da Última Hora, teria abordado familiares do pai de santo e feito declarações contra a Umbanda, dizendo que “todo macumbeiro, feiticeiro e umbandeiro vai ser julgado e vai parar no inferno”. O pastor ainda se ajoelhou próximo à residência e recitou trechos bíblicos, perturbando o sossego da família. A vítima registrou boletim de ocorrência e busca assessoria jurídica para ingressar com ação criminal.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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