Vestido com terno social impecável e chapéu de palha de abas largas, Cladyson de Oliveira, de 50 anos, vende água mineral por R$ 3 no semáforo da Rua Joaquim Murtinho, em Campo Grande. A cena já é conhecida por quem passa pelo cruzamento com a Rua Marquês de Lavradio.
“Eu sempre trabalho de terno porque isso faz parte do meu marketing. A apresentação ajuda a conquistar a clientela. A gente precisa ter uma postura profissional, trabalhar com educação e respeito”, afirma.
Natural do Paraná, ele mora na capital sul-mato-grossense desde 1980. Depois de anos trabalhando para outras pessoas, decidiu abrir o próprio negócio e encontrou na venda de água uma forma de sustento.
“Costumo dizer que deixei de trabalhar para os ‘segundos’ e passei a trabalhar para os ‘primeiros’. Isso tem um significado para mim, ligado à Palavra de Deus”, explica.
Cladyson vende água desde 2002 e trabalha exclusivamente com a marca Pôr do Sol. A escolha, segundo ele, é uma questão de fidelidade ao proprietário da empresa. “Para mim, qualidade é qualidade e fidelidade é fidelidade”, resume.
Antes de ocupar o atual ponto, ele vendia água na esquina da Rua 14 de Julho com a Avenida Fernando Corrêa da Costa. Ficou cerca de dois anos sem trabalhar para organizar o novo espaço.
“Quando recomecei aqui deu certo. O mais importante do que o rendimento é manter um ponto fixo. Se hoje você vende aqui, amanhã ali e depois em outro lugar, não conquista a confiança dos clientes”.
A trajetória dele foi marcada por desafios. Quando tinha 7 anos, sofreu um grave acidente ao ser arremessado da carroceria de uma caminhonete em uma estrada de cascalho. O impacto causou sangramento no cérebro e deixou sequelas.
“Não quebrei nenhum osso, mas o impacto afetou meus nervos. Os médicos disseram que, se aquilo não fosse tratado, eu poderia até perder a sanidade, então tiraram todo o sangue que estava acumulado no meu cérebro. Só não morri porque Deus me protegeu. Às vezes enfrento episódios de depressão, mas Deus cuida de mim e sigo em frente”, disse.
Anos depois, já trabalhando, sofreu outro acidente ao tropeçar enquanto atendia um cliente, machucando a perna. Ainda assim, não pensa em abandonar o trabalho. “Fui fazer uma manobra rápida para atender um cliente, acabei tropeçando e caindo sobre a perna. São coisas que acontecem com quem trabalha. Quem não trabalha só dá trabalho”, diz, com bom humor.
A fé é outro combustível que o mantém firme todos os dias. Antes mesmo de começar a vender, agradece pela oportunidade de estar nas ruas. “Deus disse para mim: faça a sua parte que eu ajudarei. Então eu procuro fazer a minha. Fico muito feliz quando as pessoas reconhecem meu trabalho. Eu não trabalho só para mim, trabalho para o povo”.
